15/11/2010

Série: Construções de baixo impacto – Post 1

Quando se trata de moradia ecologicamente correta, percebo que parte das pessoas imagina uma casa semelhante a um amontoado de sucata, ou a casinha do João de Barro[1], ou algo caro demais, ou de grande manutenção, pouco durável, e por aí vai. A imaginação costuma ser muito fértil.

Vamos esclarecer uma coisa: a arquitetura sustentável não deve ser vista de forma simplista. Isto é fato!

O motivo?

O processo construtivo gera impactos em todas as etapas de construção, desde os materiais utilizados, até as técnicas empregadas, passando pelo consumo de energia e o tempo de vida do edifício.
Logo... um tema complexo, mas não se assuste. As soluções podem ser simples, bonitas, atraentes, de pouca manutenção!, duráveis e muito mais...
Então ao invés de chamar de arquitetura sustentável, prefiro denominar arquitetura ou construção de baixo impacto.

Com isto em mente, darei um exemplo (entre vários) que atende uma das premissas ou A Premissa para a arquitetura de baixo impacto: o edifício adequado ao clima local (arquitetura bioclimática).

Já pensou que uma parcela significativa da população só consegue habitar espaços que tenham aparelhos de aquecimento e resfriamentos artificiais? E haja energia para mantê-los ligados...

Bom, voltando ao exemplo, ofereço uma estratégia construtiva que contempla um sistema de aquecimento passivo, ou seja: um sistema que atende a um dos critérios de uma morada ecologicamente correta!
    

Aqui o sistema funciona como um efeito estufa, da seguinte maneira: a energia solar que incide no vidro é captada no espaço (caixa de ar quente) entre o vidro e a parede (acumulação de calor, quanto mais densa e espessa, maior o tempo para sua liberação). Este calor é transmitido ao interior por condução, convecção e radiação, de forma controlada:

  • Inverno  - o ar é retirado do interior, reaquecido e retorna ao interior.
  • Primavera/outono - o ar é retirado do exterior, aquecido na “caixa de ar" e transferido para o interior de forma gradativa.
No verão é necessário utilizar uma combinação de sistemas para que não haja sobreaquecimento. Por exemplo: combinar vegetação que tenham folhas densas no verão e caducas no inverno, para que a energia acumulada na parede seja reduzida.
  • No verão o sistema retira o ar do interior e o lança para fora da “caixa de ar”, busca-se assim o efeito de ventilação natural.
Adendo:
O vidro possui um comportamento diferenciado: quanto maior o ângulo de incidência dos raios solares, maior a dificuldade da radiação atravessar o vidro. E qual a importância disto para nós?
Saber que no verão os raios solares possuem ângulo de incidência maior que no inverno.

Exemplo de aplicação do sistema:
   

“Casa Schäfer”, 1988 - Porto Santo–Portugal


Este modelo inspirador é uma das várias possibilidades de aplicação de sistemas de aquecimento passivo em regiões frias e temperadas.

Frias, Ok? Por favor, não vá “copiar e colar” a sugestão em qualquer clima e microclima! E, até para aplicar este sistema em regiões frias é necessário observar outros itens de verificação relacionados ao local. Cada projeto bioclimático deve ser analisado isoladamente.

Viu quanta explicação para alguém que queria apenas falar que as construções ecologicamente corretas possuem infinitas possibilidades construtivas e contemporâneas, utilizando técnicas regionais?

Este post é o primeiro de uma série  intitulada “Construções de Baixo Impacto”.

Quer aprofundar sobre o tema?

Dicas de leitura:

Romero, Marta Bustos Arquitetura Bioclimática dos Espaços Públicos, Ed. UnB,3ª ed., Brasília, 2007.

FROTA, Anésia Barros; SCHIFFER, Sueli Ramos. Manual de Conforto Térmico. Ed. Nobel, 2ª ed., São Paulo, 1995.



[1]  Perfeita no quesito conforto térmico