10/11/2010

Escolha um caminho...


Desenho elaborado pelo pintor Aldo Beck
(Acervo da família)
Por Elisa Beck
Parece que por toda parte, há terras, comunidades e cercanias que possuem suas características peculiares, tradicionais, históricas, paisagísticas e ambientais próprias, em parte defendidas e mantidas e em parte já desgastadas, perdidas e esquecidas dentro do contexto em que vivemos.

O que mantém uma cidade, um bairro, uma localidade, como sendo única e reconhecível, desde o momento em que andamos nas ruas, escutamos uma música ou uma conversa entre os nativos, sentimos um cheiro, vemos as cores e a paisagem, até o momento em que podemos identificá-la através de uma foto?

E o que se faz para “sustentar” essa identidade?
Enquanto alguns se esforçam para recuperar aquilo que já se perdeu, esmeirando-se para valorizar contextos, criar cenários, fazendo todo o possível para resgatar qualidades que possam servir de palco qualificado para apreciação e convivência e... Claro!
Sirvam para o fortalecimento econômico, turístico e da qualidade da vida local, já que um está intimamente relacionado com o outro...

... Enquanto isso, muitos dos nossos contextos parecem buscar a "desidentidade”.
Tanto faz você estar aqui, ou em qualquer lugar.
Todos rumo a algum lugar parecido com o quê? Com uma São Paulo, talvez?... Aonde é que se pretende chegar?
Não falo das pessoas e da incrível vida cultural que se concentra num pólo como esse...
Mas falo de um tráfego que flui a 15 km por hora, do ar e dos rios mortos, ocupações caóticas e desprovidas de qualidade ambiental.
Na contramão daqueles que pretendem ser únicos, parece que queremos detonar tudo o que nos mantém únicos. Peculiares.

Nessa onda, ocorrem verdadeiros massacres de princípios de identidade culturais, que passam quase despercebidos pela população e não são absolutamente destacados pelos veículos de comunicação.

Esta falta de respeito ao indivíduo e à coletividade são freqüentes em toda parte.
Falta de respeito ao legado paisagístico-ambiental.

Estamos colecionando saudades e mais saudades à medida que destruímos o que há de valor por ambientes urbanos cada vez mais desqualificados e desumanizados.

Vou deixar aqui um trechinho comentado por meu avô querido, que assistiu a mudanças drásticas, aterros, demolições... Eram os novos tempos do concreto armado que chegavam à Capital com toda força na década de 70...

Eu acompanho os fatos, não sou absolutamente contra o progresso, mesmo
porque ele é inevitável, mas o que seria de um povo que não conservasse seus
costumes, que não preservasse sua identidade? Sou de opinião que em
benefício dos modernismos o antigo não devesse ser inteiramente sacrificado.
Uma boa parte da cidade deveria ser poupada. Eu ando por aí desenhando
tudo com muita fúria, com medo que no dia seguinte aquilo tenha desabado. Eu chego a me sentir um pouco responsável pela memória das nossas coisas
.”


Pintor Aldo Beck, em trecho de entrevista concedida e publicada pela revista
A Verdade nº 44, publicado em novembro de 1986.



E ainda hoje... Continuamos colecionando saudades...

Florianópolis, 10 de novembro de 2010.
Elisa de Oliveira Beck
e-mail: elisabeck@gmail.com